A reabilitação cognitivo comportamental (RCC) combina elementos de terapia cognitiva comportamental (TCC) e de reabilitação neuropsicológica.

O estudo foi realizado no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP pelo pesquisador Bernardo Carramão, em busca de uma nova abordagem de psicoterapia em grupo para pacientes adultos com transtorno bipolar (TB). O TB é um quadro psiquiátrico de elevado custo financeiro e pessoal que representa um desafio clínico, principalmente sob a ótica da recuperação funcional e cognitiva desses pacientes

Nos últimos anos a pesquisa em psicoterapia para Transtorno Bipolar (TB) tem crescido em quantidade e qualidade de estudos, porém tais estudos não têm replicado os achados positivos iniciais para esta população, seja no que tange o aumento no tempo sem novos episódios, ou mesmo na redução de sintomas de mania e depressão. Além disso, pouco se sabe sobre o papel que tais abordagens podem desempenhar na recuperação funcional desses pacientes, observada como baixa em diversos estudos prévios. Dessa forma novas abordagens psicoterápicas têm sido desenvolvidas de forma a cobrir tais hiatos na literatura. Ao mesmo tempo, a pesquisa em Neuropsicologia de pacientes com TB vêm apresentando dados robustos de prejuízo cognitivo, mesmo em fases eutímicas do transtorno. Isso tem se mostrado especialmente verdadeiro para funções executivas, memória verbal, atenção e velocidade de processamento. Dados recentes também sugerem que há uma associação entre prejuízo cognitivo em funcional, sendo este possivelmente explicado por aquele.

Ao todo 60 pacientes com TB foram inclusos neste estudo e randomizados para um grupo controle, mantido sob tratamento padrão medicamentoso, ou experimental que, além de receber o tratamento padrão, participou de 12 sessões semanais de RCC de uma hora e meia cada. Na entrada de estudo os grupos não diferiram em nenhuma das variáveis sócias demográficas, clínicas e neuropsicológicas. O desempenho cognitivo foi aferido através da Cambridge Neuropsychological Test Automated Battery (CANTAB), uma bateria neuropsicológica automatizada composta por diversos testes que medem diferentes funções cognitivas. Ao término da intervenção 39 pacientes foram incluídos nas análises e 21 foram excluídos. Dentre os 39 pacientes, 20 participaram das sessões de RCC e 19 foram mantidos sobre tratamento padrão. Todos participaram das reavaliações após o fim das 12 semanas de tratamento, porém o período de 12 meses não foi atingido por todos os participantes e, assim são apresentados os resultados do pós-tratamento. Não houve diferença entre os grupos para tempo até novo episódio de humor bem como nas escalas de funcionalidade e de qualidade de vida. O grupo de RCC melhorou seu desempenho no reconhecimento de emoções e reduziu seu tempo de reação.

Como potenciais benefícios para a sociedade as intervenções profiláticas e de Reabilitação cognitiva como essa podem colaborar com a construção de um prognóstico mais benéfico e produtivo para estes indivíduos. Além disso, esse estudo contribui para a prática de intervenções psicoterápicas baseadas em evidências, uma área ainda carente nesse país. Os resultados desse estudo podem ainda estimular a construção de novos protocolos psicossociais que busquem associar a interface entre psicoterapia e reabilitação neuropsicológica, esferas que têm caminhado em paralelo na literatura.

Pesquisador Bernardo Carramão Gomes, Psicólogo, Terapeuta Cognitivo Comportamental do Programa de Transtorno Bipolar PROMAN do IPq.