O objetivo da pesquisa foi avaliar a eficácia da Terapia Focada na Compaixão em grupo para pessoas diagnosticadas com TEPT, através da comparação de dois tipos diferentes de intervenção psicológica

A escolha da Terapia Focada na Compaixão (TFC) se baseou nos trabalhos do psicólogo inglês, Paul Gilbert, que percebeu em sua prática clínica de mais de duas décadas, que as pessoas com quadros crônicos e problemas complexos de saúde mental diziam: “eu posso ver a lógica a partir das evidências de que eu não sou um fracasso, mas eu ainda sinto que sou” ou “eu sei que não foi por minha culpa eu ter sido abusada sexualmente quando criança, mas eu ainda me sinto mal e culpada“. Quando o autor explorou o tom emocional utilizado por essas pessoas na busca por pensamentos alternativos, detectou que esses estavam, muitas vezes, entrelaçados com sentimentos de decepção, hostilidade, vergonha, culpa, autocrítica, desprezo ou desistência.

            A pesquisa foi realizada no Instituto de Psiquiatria no período de julho/2015 a julho/2018 e buscou atender a demanda do Ambulatório de Ansiedade (AMBAN-IPQ), pois após participarem de outra pesquisa onde trataram o TEPT (psicoterapia individual) alguns pacientes recaíram após alguns meses, com/sem um novo evento traumático. Além desses, havia também a crescente demanda de novos pacientes procurando tratamento após vivenciarem eventos traumáticos, em sua grande maioria, devido o aumento da criminalidade e violência na grande São Paulo. A escassez de profissionais treinados para atender tal demanda, nos levou à necessidade de oferecer o atendimento no formato grupal, apesar de não haver evidências na literatura sobre a eficácia de tratamento psicoterápico em grupo no TEPT. Para oferecer tratamento em grupo que focasse não apenas nos sintomas per se, nós traduzimos as escalas TEPT (atualizado pelo DSM-5), e focamos o tratamento no treino das habilidades de compaixão, buscando aumentar a autocompaixão – como antídoto na diminuição dos ciclos de vergonha, culpa e autocrítica – visando diminuir sintomas do TEPT, depressão e ansiedade.

            O diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) está bem descrito no capítulo sobre Transtornos Relacionados a Trauma e Estressores, no livro DSM-5.

            O TEPT é o único diagnóstico em psiquiatria que exige que uma pessoa tenha sido exposta a um evento externo: pode ser um episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual, que tenha ocorrido de forma direta (ter vivenciado) ou indireta (ter testemunhado, ter conhecimento ou ter sido exposta de forma repetitiva ou extrema aos detalhes aversivos do evento). No contexto brasileiro, diferente de outros países, não estamos nos referindo às guerras, vulcões, tsunamis ou terremotos, mas sim aos eventos do nosso cotidiano, tais como: violência urbana (acidentes de trânsito, assaltos e sequestro relâmpago, cativeiro, briga de gangues, etc.), abuso de várias formas (moral no trabalho, sexual nos relacionamentos, violência doméstica, bullying na escola ou trabalho, etc.) além de desastres naturais (enchentes, avalanches,  desmoronamentos, etc.).   Após a exposição ao(s) evento(s), a pessoa passa a apresentar alguns sintomas, tais como ter lembranças angustiantes, repetitivas e involuntárias; ter pesadelos; sentir como se o evento estivesse acontecendo de novo; sentir sofrimento psicológico intenso e/ou reações intensas no corpo como se o evento estivesse acontecendo de novo; esforços para evitar lembranças (de pessoas, lugares, conversas, atividades, objetos, situações) ou recordações angustiantes (imagens, pensamentos, sentimentos). Há também a incapacidade de recordar aspectos importantes do evento; crenças negativas exageradas a respeito de si mesmo, dos outros e do mundo e estado emocional persistentemente negativo (medo, pavor, raiva, culpa ou vergonha); diminuição importante no interesse nas atividades antes prazerosas; e uma persistente incapacidade de sentir emoções positivas, sentimentos de felicidade, satisfação ou amor. Além disso, pode ter reações exageradas, surtos de raiva, agressão verbal ou física, autodestruição, problemas de concentração ou sono. Todos estes sintomas tiveram início após o evento traumático, já duram mais de um mês, causando grande sofrimento e prejuízo profissional e social.

            É muito importante que a população esteja bem informada sobre o TEPT, e saiba identificar o evento traumático como um “divisor de águas” na vida da pessoa e quando é a hora de buscar ajuda especializada. Os sintomas descritos acima não podem ser confundidos com “fraqueza” ou “covardia”, pois isso pode aprisionar a pessoa num ciclo de “vergonha” e “culpa”. É necessário ser diagnosticado corretamente e, assim, poder receber o tratamento adequado, possibilitando o retorno à funcionalidade na sua vida afetiva, pessoal e profissional (Fonte: DSM-5 Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 2014, ARTMED).

As intervenções da TFC envolvem a criação de tons e texturas emocionais favoráveis ??e úteis para os pensamentos alternativos; buscando criar uma voz interior calorosa e amorosa – como se a pessoa estivesse falando com um querido amigo – e sentir o impacto desse tipo de voz.  A compaixão e seus componentes podem ser definidos de várias formas. Na TFC a compaixão é compreendida em termos de habilidades e atributos específicos, e o principal trabalho é o Treino da Mente Compassiva, em que o terapeuta promove a compaixão através da compreensão dos atributos e habilidadesda compaixão. Dessa forma, o paciente recebe a ajuda necessária para desenvolver uma relação compassiva consigo mesmo, para substituir a relação anterior de reclamação, condenação e autocrítica (Fonte: Compassion Focused Therapy, Distinctive Features, Paul Gilbert, 2010).

            O objetivo da pesquisa foi avaliar a eficácia da Terapia Focada na Compaixão em grupo para pessoas diagnosticadas com TEPT, através da comparação de dois tipos diferentes de intervenção psicológica. Os pacientes receberam tratamento psicoterápico em grupo, na Terapia de Apoio (TA-G)  ou Terapia Focada na Compaixão (TFC-G). Todos os pacientes preencheram os critérios de inclusão na pesquisa e responderam escalas de avaliação em 3 momentos: antes da 1ª sessão de terapia (Tempo-1), após a 8ª e última sessão de terapia (Tempo-2) e no seguimento de 3 meses (Tempo-3). Para cada grupo, foram realizadas 8 sessões semanais, com uma 1 hora e meia de duração cada sessão. Foram randomizados 87 pacientes que preencheram os critérios de inclusão e assinaram o Termo de Consentimento. No grupo da TA-G, 43 pacientes receberam Terapia de Apoio (apenas o suporte e apoio, e não houve nenhuma intervenção específica) e no grupo TFC-G 44 pacientes receberam Terapia Focada na Compaixão (com protocolo e intervenções específicas, com foco no treino das habilidades de compaixão).

Os resultados mostraram que houve melhora significativa, em ambos os grupos (não houve efeito de interação entre os grupos e os tempos, exceto na escala de trauma CAPS-5, F (1, 171) = 4,35, p = 0,041.). Houve uma diminuição expressiva, comparando a média do Tempo-3 em relação ao Tempo-1, nos dois grupos (TA-G e TFC-G, respectivamente) nas escalas: CAPS-5, escala de trauma (24,40 e 29,77); DTS, escala de trauma (31,83 e 33,94); BDI, escala de depressão (9,77 e 12,06); BAI, escala de ansiedade (7,33 e 8,23); BHS, escala de desesperança (3,53 e 3,55); ATQ-N, questionário  de pensamentos automáticos negativos (15,67 e 14,90); OAS, inventário sobre a vergonha (8,20 e 7,68); FSCS, inventário sobre a função da autocrítica (9,07 e 6,71) e houve aumento na ATQ-P, escala de pensamentos automáticos positivos (10,96 e 16,36) e na SCS, escala de autocompaixão (0,50 e 0,52).

A significativa melhora dos pacientes comprovou a importância da terapia em grupo no tratamento do TEPT. A redução de 30 pontos na escala de trauma, CAPS-5, no grupo TFC-G. em apenas oito semanas de terapia, é uma evidência robusta de que este modelo de tratamento focado na compaixão, vergonha, culpa e autocrítica, é seguro, eficaz e uma esperançosa opção no tratamento de pessoas que vivenciaram eventos traumáticos.

Os resultados comprovaram a eficácia do tratamento em grupo para a diminuição dos sintomas do trauma, depressão, ansiedade, desesperança e diminuição dos pensamentos automáticos negativos. Houve também um aumento na autocompaixão (SCS) e nos pensamentos automáticos positivos. A robusta evidência da melhora dos pacientes nos dois grupos indica a possibilidade de utilizarmos mais intervenções no formato grupal, com ou sem o treino da compaixão. Este protocolo de 8 semanas em grupo, é um tratamento simples, curto, seguro e eficaz, transdiagnóstico, que pode ser adaptado e utilizada com segurança na prática clínica para vários diagnósticos psiquiátricos.

Lina Sue Matsumoto CRP 06/88.939, psicóloga voluntária no IPq-HCFMUSP no Ambulatório de Jogo Patológico (Pro-AMJO) e na Associação Viver Bem (Dissertação disponível em https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-06112018-134730/pt-br.php)