A pesquisa sobre “O impacto do Exercício Físico aeróbico sobre comorbidade psiquiátrica, impulsividade e comportamento de jogo, em portadores de transtorno do jogo: um estudo randomizado e controlado”,  foi realizada no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.

O Transtorno do jogo (TJ), anteriormente classificado como transtorno do controle do impulso, está classificado hoje, no DSM-5, entre as dependências, sendo a primeira vez que se reconhece outro comportamento (apostar), além do uso de substância, como uma dependência. Evidências apontam melhoras relevantes no funcionamento físico e psicológico propiciadas pela atividade física. Entretanto, ainda não havia na literatura dados se um programa de exercícios físicos poderia ser útil no tratamento do transtorno do jogo (TJ), devido à falta de estudos, ao tamanho reduzido das amostras e à falta de grupo controle, esclarece a pesquisadora Ana Claudia Penna, educadora física do Programa Ambulatorial do Transtorno do Jogo do IPq.

O Objetivo do estudo foi abordar essas lacunas empíricas através da realização de um ensaio clínico controlado e randomizado com um programa de exercício físico aeróbico (corrida/caminhada), comparado a um grupo controle ativo (alongamento), em acréscimo ao tratamento usual para TJ, para avaliação dos efeitos do exercício aeróbico nas comorbidades psiquiátricas, na impulsividade e no comportamento de jogo. Participaram do estudo 59 pacientes com diagnóstico confirmado de TJ em início de tratamento, aleatoriamente, para uma, de duas possibilidades: grupo experimental (GE, n=32), com oito semanas de exercício físico, duas sessões de 50 minutos, cada (10 minutos de alongamento, mais 40 minutos de exercício aeróbico com intensidade moderada a intensa, ou seja, 70 a 85% da frequência cardíaca máxima estimada para a idade); ou grupo controle (GC, n=27), com sessões de alongamento de 50 minutos, duas vezes por semana, pelo mesmo período. Teste de Cooper e monitores de frequência cardíaca foram utilizados para garantir que os participantes do GE cumprissem a frequência cardíaca alvo. Avaliadores cegos ao tipo de intervenção designada analisaram os participantes, antes e depois da intervenção. O tratamento com psicoterapia e uso de medicações psiquiátricas, durante a intervenção, foram registrados para o controle estatístico.

Os resultados mostraram reduções significativas na depressão e nas comorbidades psiquiátricas em geral (abuso/dependência de álcool, fobia social, transtorno do pânico, transtorno do estresse Pós-traumático e qualquer comorbidade psiquiátrica) em ambos os grupos, após a intervenção.

O grupo que realizou atividade aeróbica apresentou uma redução mais significativa das comorbidades psiquiátricas, quando comparado ao grupo que só realizou alongamento. Ambos os grupos também melhoraram, em relação à impulsividade avaliada em testagem neuropsicológica (controle inibitório e planejamento). As variáveis relacionadas ao jogo, ou seja, às apostas, prejuízo de socialização, desgaste emocional, e financeiro, e a “fissura” sofreram reduções significativas ao final da intervenção, para ambos os grupos.

Foi constatado que as comorbidades psiquiátricas diminuíram significativamente para toda a amostra. O transtorno depressivo maior diminuiu significativamente (28,8% melhoraram, 1,7% pioraram e 69,5% inalterados, p 0,001). A presença de qualquer comorbidade psiquiátrica também apresentou variação significativa antes e após a intervenção para toa a amostra. Houve uma diferença significativa, ao longo do tempo nas variáveis do jogo como: comportamento de jogo, desgaste emocional/financeiro, socialização e no escore total. Também melhorou aa taxa de recuperação do jogo e duplicou com 20 participantes (33,9%). Ou seja, ambos os grupos, experimental e controle melhoraram em relação às variáveis de jogo e “fissura”.

O estudo concluiu que a melhora clínica observada e propiciada pelo exercício físico se dá de forma independente de outros componentes terapêuticos, especificamente psicoterapia e medicação, portanto, um programa de exercícios físicos pode representar intervenções rentáveis e acessíveis no tratamento do Transtorno do jogo (custo baixo e sem efeitos colaterais), ajudando as pessoas que sofrem com TJ, a viverem com uma melhor qualidade de vida, especificamente no que se refere às comorbidades psiquiátricas.

Mais informações: Ana Claudia Penna, Educadora física no PRO-AMJOI, e-mail: anaclaudiapenna@usp.br