O Transtorno Obsessivo Compulsivo-TOC é um transtorno psiquiátrico altamente prevalente, com evolução crônica e que constitui importante fonte de incapacitação globalmente. O TOC é o principal representante de um conjunto de transtornos psiquiátricos (TOC e transtornos relacionados), atualmente agrupados em capítulos específicos nas duas principais classificações diagnósticas utilizadas na psiquiatria – o DSM-5 e a CID-11. Além disso, o TOC é um exemplo importante de um transtorno neuropsiquiátrico que vêm sendo estudado por meio de pesquisas com métodos rigorosos a respeito da sua fenomenologia, psicobiologia, tratamento farmacológico e psicoterapia, e cujos resultados vêm contribuindo para melhorar o seu reconhecimento, avaliação e desfechos clínicos.

A equipe de pesquisadores do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo Compulsivo (Protoc) está conduzindo um estudo multicêntrico internacional que investiga os marcadores cerebrais do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Em colaboração com quatro centros de pesquisa internacionais, os pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP realizaram uma extensa revisão sobre os conhecimentos mais atualizados a respeito da epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, screening, prevenção e tratamento do TOC.

Embora o TOC seja um transtorno relativamente homogêneo na sua apresentação clínica, com dimensões de sintomas similares ao redor do mundo, a avaliação individualizada dos sintomas, grau de insight e presença de comorbidades ainda se faz necessária. Vários mecanismos neurobiológicos subjacentes ao TOC foram identificados, incluindo circuitos cerebrais específicos envolvidos na fisiopatologia do TOC. Além disso, modelos laboratoriais demonstraram como disfunções celulares e moleculares relacionam-se com comportamentos repetitivos estereotipados, e a arquitetura genética do TOC vem sendo cada vez mais esclarecida. Os tratamentos eficazes para o TOC incluem os inibidores seletivos da recaptura de serotonina e a terapia cognitivo-comportamental. Para os casos intratáveis, existe o tratamento neurocirúrgico.

A integração de pesquisas em saúde mental em nível global com métodos de neurociência translacional pode contribuir para a expansão do conhecimento a respeito desse transtorno e ter um impacto positivo no desfecho clínico dos portadores de TOC.

O presente estudo foi realizado em colaboração com renomados pesquisadores da área de quatro instituições internacionais – Universidade Columbia (EUA), Universidade de Amsterdã (Holanda), Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul) e Instituto Nacional de Saúde Mental e Neurociências (Índia). A revisão foi publicada na prestigiada revista científica, Nature Reviews Disease Primers, e tem por objetivo descrever o estado da arte sobre os conhecimentos a respeito da epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, screening, prevenção, tratamento do TOC.

Em particular, desenvolvemos um fluxograma de tratamento com as evidências mais atualizadas produzidas por diversos ensaios clínicos. A principal vantagem do fluxograma consiste em levar em conta não apenas a eficácia dos tratamentos disponíveis atualmente para o TOC, mas também a sua disponibilidade, podendo ser adaptado para diferentes contextos, países e cenários de tratamento, ressalta o pesquisador Daniel Costa.

Os potenciais benefícios de resultados para a sociedade incluem a difusão do conhecimento sobre um transtorno altamente prevalente e incapacitante, o que pode inspirar pesquisas futuras, além de contribuir para a capacitação de profissionais de saúde mental. Em última análise, espera-se a ampliação do acesso aos tratamentos de primeira linha, o que pode minimizar o sofrimento e a incapacitação decorrentes do transtorno.

Mais informações: Psiquiatra Daniel Costa – e-mail: danielcosta228@gmail.com

Artigo link: www.nature.com/articles/s41572-019-0102-3

O estudo que investiga os marcadores cerebrais do TOC é financiado pelo National Institute of Mental Health, dos EUA. Porém, o PROTOC já recebeu diversos auxílios da Fapesp, o que contribuiu de forma indireta para a elaboração do presente artigo