O estudo desenvolvido no Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP permitiu verificar a efetividade do treino cognitivo na população de idosos e o aumento dessa efetividade decorrente da combinação do treino de memória associado a estimulação através do aparelho que oferece uma visão em 3D -Tree-dimentionalmultipleobjecttracking (3D-MOT).

Os treinos cognitivos, de certa forma, são elaborados com base no entendimento de que o cérebro humano apresenta capacidade plasticidade neural até o final da idade adulta (Karbachand Schubert, 2013; Melby-LervågandHulme, 2013; Leung et al., 2015). O declínio cognitivo cursa com a preocupação com o envelhecimento, visto que existe a maior possibilidade de ocorrência de demências, gerando impacto na esfera física, psicológica, social, familiar e econômica por causar incapacidade e dependência (World Health Organization – WHO, 2017). No entanto, estudos apontam que o engajamento de idosos em programas de estimulação cognitiva evidenciam redução tanto do declínio cognitivo esperado com a idade quanto para os casos patológicos (Marioni et al., 2012; Legault et al., 2013; Kelly et al., 2014; Arnemann et al, 2015; Rodakowski et al., 2015; Giuli.al, 2017).

Há uma carência no Brasil quanto à implantação de programas de treino cognitivo em várias áreas. Em relação à população idosa, dados do censo brasileiro (2015) indicaram que 14,3% de um total de 204.450.649 habitantes correspondiam à população com 65 anos ou mais. Além do que, expectativas da WHO refere que, em 2025, o Brasil será o sexto do mundo em população idosa. Por um lado, sabe-se que o envelhecimento apresenta importantes efeitos na cognição, na funcionalidade e qualidade de vida na população idosa, bem como, no próprio cérebro, mas não necessariamente como um processo patológico. Trabalhar com treino cognitivo para melhorar a qualidade de vida da população idosa é algo de suma importância.

Os pesquisadores do Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do IPq exploraram a efetividade de um treino de memória associado a um estímulo Tree-dimentionalmultipleobjecttracking (3D-MOT) Neurotrack (NT) em idosos sem queixas cognitivas. Participaram 44 idosos (>60 anos), randomizados em dois grupos: experimental (GE=22) e comparativo (GC=22). Foram realizados 12 encontros, duas vezes na semana, com duração de uma hora cada, sendo que o GE realizou uma hora a mais com o NT.

Os resultados obtidos foram encorajadores quanto à continuidade das pesquisas e desenvolvimento de intervenções cognitivas para a população idosa, ainda que sem queixa cognitiva, para prevenção de déficits. Até o momento do estudo não foram encontradas pesquisas na literatura , salvo pela publicação de um relato de caso do nosso grupo (Assedet al., 2016). Escolhemos o NT por se basear na ideia de hierarquia das funções treinadas. Neste seguimento, o NT foi desenvolvido para treinamento da visão periférica, e associa-se principalmente a estimulação da atenção dividida, memória operacional e a velocidade de processamento (Faubertet al., 2012; Parsons et al., 2016). Ressaltando no entanto, que os estudos com esta ferramenta tem sido em sua maioria com atletas, os quais evidenciam melhoras nos desempenhos relacionados ao processamento e aprendizagem de informações, além da melhora da performance em campo (Faubert, 2013; Margine et al., 2014). Estudos também observaram melhoras no funcionamento executivo de adultos jovens não atletas (Parsonset al., 2014) e na memória trabalho de militares (Vartanian et al., 2016).

Aos resultados evidenciaram que ambos os grupos se beneficiaram com o treinamento de memória e reportaram sentimentos mais positivos quanto à própria memória e a qualidade de vida, contudo o GE obteve um resultado melhor em testes que se mostravam consistentes com as estratégias treinadas e envolviam recursos atencionais, tempo de reação, velocidade de processamento visual, memória operacional, episódica, semântica e subjetiva, além de aspectos da cognição social.

Sendo assim, ações voltadas a potencializar funções cognitivas ou retardar seus declínios se mostram promissoras (Scholzand Klein, 2009; May, 2011; Brehmeret al., 2012; Leung et al., 2015; Han et al., 2018). Neste contexto, a literatura tem relatado benefícios dos treinos cognitivos e de programas de reabilitação para os idosos (Benderet , Raz 2010; Netto et al., 2012; Silva et al., 2011; Legault et al., 2013; Arnemann et al., 2015; Rodakowski et al., 2015; Giuli et al., 2017), estabelecendo-se a necessidade de se investir no delineamento mais específico de como devem ser aplicados estes programas de intervenção.

Informações adicionais – Estudo foi realizado pela psicóloga com especialização em neuropsicologia Mariana Assed, sem bolsa e orientada pelo Prof. Dr. Antônio Serafim e co-orientada pela  Psicóloga Dra. Cristiana Castanho de Almeida  Rocca.

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