Existem inúmeras evidências do impacto da religiosidade/espiritualidade na saúde mental. Geralmente essa influência é positiva, mas também, em alguns casos, pode ser negativa e, portanto, deve ser considerada na avaliação e tratamento psiquiátrico. Assim orientam as principais associações médicas. Além disso, o Brasil é um país altamente religioso, 92% da população têm religião e 83% consideram a religião muito importante em suas vidas. O estudo desenvolvido no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP pela pesquisadora Maria Cecília Menegatti Chequini, sob orientação do prof. Homero Vallada, buscou caracterizar o perfil religioso/espiritual de psiquiatras brasileiros e investigar sua influência nos cuidados de seus pacientes. A pesquisa realizada foi do tipo observacional transversal e utilizou um questionário que avaliou as características da religiosidade/espiritualidade (R/E) do psiquiatra e sua prática clínica. 

 Essa abordagem investigativa resultou em três estudos. O primeiro analisou 484 psiquiatras pertencentes à Associação Brasileira de Psiquiatria/ABP, que responderam à versão “on-line” do questionário. Destes, 71,4% acreditavam em Deus, 67,4% eram afiliados a uma instituição religiosa e, embora a maioria (76,8%) considerasse importante a inclusão da R/E na prática clínica, menos da metade (45,5%) perguntava, frequentemente, sobre as crenças religiosas/espirituais de seus pacientes. Os psiquiatras que se declararam mais religiosos e/ou espirituais eram mais propensos a incluir a R/E na assistência ao paciente. As dificuldades mais comuns relatadas na abordagem da R/E no contexto clínico foram: medo de extrapolar o papel de médico (30,2%), falta de treino (22,3%) e falta de tempo (16,3%). O segundo estudo investigou 84 psiquiatras do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, um dos principais centros na formação de novos psiquiatras e de pesquisa em neurociências no Brasil. Os resultados foram semelhantes ao primeiro estudo, embora os percentuais tenham sido um pouco menores: 59,5% declararam crença na existência de Deus e 57,7% indicaram afiliação religiosa. Mais da metade (64,2%) relatou que suas crenças religiosas influenciavam sua prática clínica e 50% discutiam frequentemente sobre a R/E com seus pacientes. As barreiras mais comuns na abordagem da R/E foram: falta de tempo (27,4%), medo de exceder o papel do médico (25%) e falta de treino (19,1%). O terceiro estudo utilizou o método de análise de perfil latente na amostra envolvendo os psiquiatras participantes dos dois estudos anteriores (n=592), com o objetivo de identificar subgrupos de perfis religiosos/espirituais entre os psiquiatras brasileiros. Foram identificados dois perfis ou categorias de profissionais de acordo com suas características religiosas/espirituais (valor de entropia> 0,96): o perfil denominado “menos religiosos” concentrou o maior número de psiquiatras do sexo masculino, com mais anos de experiência profissional, com maior percentagem de mestres e doutores e com tendência a não avaliar a R/E de seus pacientes; e o perfil “mais religiosos” reuniu os psiquiatras que mais consideravam a importância do papel da R/E na saúde e, como esperado, eram aqueles que abordavam com mais frequência a temática da R/E com seus pacientes. 

Principais resultados 

Quanto às semelhanças e diferenças entre os psiquiatras do IPq-HC-FMUSP e o restante dos psiquiatras brasileiros, os resultados apontaram que embora os psiquiatras do IPq-HC-FMUSP tenham se mostrado um pouco menos religiosos/espirituais, eram bastante semelhantes aos demais. 

De maneira geral, os resultados demonstraram que embora os psiquiatras brasileiros sejam mais céticos quando comparados à população brasileira, a maioria tem religião e acredita em Deus. Entendem que os aspectos religiosos/espirituais devem ser integrados na prática clínica e na formação dos médicos, mas apenas metade o faz, ou seja, apenas metade discute sobre o assunto com seus pacientes. Eles alegam dificuldades em abordar os temas com seus pacientes. As barreiras mais citadas são: medo de extrapolar o papel de médico, falta de treino e falta de tempo.

Os resultados também revelaram que as diferentes características religiosas/espirituais dos psiquiatras brasileiros moldam suas opiniões e comportamentos relacionados a R/E na prática clínica, ou seja, os valores religiosos/espirituais dos psiquiatras brasileiros estão associados a diferentes opiniões e comportamentos relacionados à abordagem da religiosidade e da espiritualidade na prática clínica. Aqueles que são mais religiosos/espirituais consideram mais importante incluir o tema na prática e investigam mais a religiosidade e a espiritualidade do paciente, e os menos religiosos/espirituais tendem a ignorá-las.

(os resultados foram publicados em: A preliminary survey on the religious profile of Brazilian psychiatrists and their approach to patients’ religiosity in clinical practiceHow psychiatrists think about religious and spiritual beliefs in clinical practice: findings from a university hospital in São Paulo, Brazil ) Patterns of religiosity and spirituality of psychiatrists in Brazil and the implications for clinical practice: a latent profile analysis ).

Menegatti-Chequini MC. A religiosidade e a espiritualidade na prática psiquiátrica [tese]. São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2020.

Mais informações através do e-mail: mceciliamc@usp.br