Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Latency to treatment seeking in patients with obsessive-compulsive disorder: Results from a large multicenter clinical sample

Latência para procura de tratamento em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo: resultados de uma grande amostra clínica multicêntrica.

Mais um artigo com os dados do Consórcio Brasileiro de Pesquisa sobre o Transtorno Obsessivo-Compulsivo publicado no Psychiatry Research. O estudo investiga o tempo entre o surgimento do desconforto causado pelos sintomas do TOC e o início do tratamento específico para esta condição. Além disso, foram pesquisadas as características clínicas e sócio-demográficas capazes de influenciar este desfecho.

Metade dos mais de 1.000 pacientes, avaliados em 8 centros de pesquisa especializados no TOC de diferentes regiões do Brasil, levou pelo menos 4 anos para receber tratamento específico para o TOC, tempo considerável levando em conta os prejuízos e limitações impostos pela doença – a World Health Organization inclui o TOC na lista das 10 doenças mais incapacitantes.

Pacientes mais velhos, que tiveram o início dos sintomas na infância/adolescência, que apresentavam sintomas da dimensão sujeira/contaminação (nojo excessivo, medo exagerado de contaminação, rituais de limpeza e lavagem) ou que estavam empregados full-time demoravam ainda mais para receber tratamento específico para o TOC.

No artigo são discutidas as possíveis causas dessas associações. Sintomas da dimensão de sujeira/contaminação/limpeza, apesar de serem uma das manifestações mais comuns e conhecidas do TOC, são os mais frequentemente associados a um fenômeno conhecido como acomodação familiar, que consiste basicamente em modificações do ambiente e do comportamento dos familiares ou pessoas que convivem intimamente com o portador de TOC, de forma a evitar que ele(a) entre em contato com situações consideradas desagradáveis, capazes de causar desconforto. Em outras palavras, os familiares que moram na mesma casa adotam comportamentos parecidos com os do portador de TOC, por exemplo: tiram os sapatos antes de entrar em casa, executam os mesmos rituais de limpeza, tiram o lixo de casa porque sabem que isso não poderia ser feito pelo familiar que sente nojo excessivo ou que tem medo de contaminação. Isso garante um ambiente protegido para quem tem TOC e torna mais “fácil” a convivência familiar. Por outro lado, isso tende a restringir as possibilidades de convívio social de quem tem TOC, ou seja, eles passam a evitar ambientes onde essas medidas não são amplamente adotadas. A acomodação familiar pode dificultar a busca pelo tratamento porque, de certa forma, o paciente e a família ficam adaptados a esse estilo de vida. Já a associação entre o aumento do tempo para buscar tratamento e o aumento da idade pode ser explicada pelo fato de que o tratamento farmacológico do TOC atualmente considerado de primeira linha foi desenvolvido na década de 90. Portanto, os pacientes que participaram da pesquisa nascidos antes disso levaram mais tempo para receber o tratamento adequado justamente porque naquela época não havia tratamentos eficazes. Isso também explica, em parte, a associação entre o maior tempo para buscar ajuda quanto menor a idade de aparecimento dos sintomas. Além disso, sintomas do TOC que se iniciam na infância/adolescência precisam ser reconhecidos pelos pais ou cuidadores para que a busca de tratamento aconteça, o que pode ser difícil levando em conta o repertório restrito de crianças e adolescentes para expressarem algum tipo de sofrimento emocional.

A pesquisa mostrou que portadores de TOC que estavam empregados demoravam mais para buscar ajuda em relação aos que não trabalhavam em tempo integral.

“Uma das possíveis explicações para isso é que os portadores de TOC que trabalham podem ter uma percepção de que, apesar dos sintomas, “funcionam” bem, o que pode diminuir a sua percepção de que são portadores de um problema de saúde tratável”, relata o médico psiquiatra Daniel Costa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e um dos autores do artigo.

Também foram discutidas quais estratégias podem ser adotadas para reduzir o tempo até o início do tratamento. Em destaque a promoção de educação continuada para os profissionais de saúde visando aumentar a identificação do transtorno, a criação de serviços de saúde mental especializados para a implementação de tratamentos baseados em evidências e a realização de campanhas educativas sobre como reconhecer os sintomas do TOC voltadas para a população em geral.

O artigo está disponível para download de forma gratuita até 17/06/2022 no link: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2022.114567