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Pesquisador do IPq, Rodolfo Damiano, colaborou na matéria  UOL/VivaBem  sobre como melhorar memória pós-Covid.

EQUILÍBRIO

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Gabriella Barbosa já pegou covid-19 três vezes e sente que sua memória de curto prazo não é mais a mesma - iStock
Gabriella Barbosa já pegou covid-19 três vezes e sente que sua memória de curto prazo não é mais a mesma Imagem: iStock

Isabella Abreu

Colaboração para o VivaBem

05/08/2022 04h00

Além de vítimas fatais e consequências econômicas, a pandemia da covid-19 pode ter deixado um saldo negativo para a cognição de milhões de pessoas que contraíram a doença.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo) mostra que 51% dos pacientes que se internaram no Hospital Universitário entre o fim de 2020 e o início de 2021 apresentaram alguma perda de memória após a infecção, e levaram o dobro do tempo médio para completar testes cognitivos.

Na internet, são vários os relatos dos que foram acometidos pelo vírus e tiveram problemas relacionados à cognição, como lentidão no raciocínio, dificuldade com a memória e para assimilar novas informações, mesmo após a recuperação da doença.

Foi assim com a bibliotecária Gabriella Barbosa, 36, de Santos (SP). Mesmo com todos os cuidados, já pegou covid-19 três vezes, todas com sintomas leves —graças às vacinas. A última, em junho de 2022, deixou como sequela a percepção de que a sua memória de curto prazo não é mais a mesma.

Muitas vezes, penso em anotar uma informação e, logo após pegar a caneta, esqueço o que ia escrever. Com frequência fico parada, com o olhar distante, como se eu estivesse ‘desligado’

“Com minhas contas, chego a entrar várias vezes no site do banco para verificar se realmente paguei, porque não tenho mais certeza de nada! Durante conversas, esqueço palavras simples ou, se sou interrompida, não consigo dar continuidade à história”, conta Gabriella.

Tem volta?

A pandemia segue em andamento e há muitas dúvidas sobre a possibilidade de reversão desses quadros. Os estudos ainda tentam responder como é a evolução de queixas cognitivas ao longo do tempo.

Um deles, conduzido por pesquisadores alemães, observou a recuperação da memória em seis meses e a melhora da atenção em nove meses após a infecção por covid, sugerindo que alguns comprometimentos cognitivos relacionados ao vírus são potencialmente reversíveis.

Como Gabriella se infectou com a doença recentemente, ela espera que a perda de memória e a falta de foca sejam problemas temporários. Mas caso meses se passem e nada de melhorar, é bom procurar um médico.

“Caso os sintomas cognitivos sejam persistentes e estejam prejudicando a vida cotidiana e o trabalho, a recomendação é que a pessoa procure por especialistas para uma avaliação mais detalhada”, diz Lúcia Willadino Braga, neurocientista e presidente da rede Sarah, em Brasília.

O que fazer

Segundo Eduardo Uchôa, diretor da regional Centro-Oeste da ABN (Associação Brasileira de Neurologia), algumas estratégias podem auxiliar na rotina diária, como:

  • planejar o dia e estabelecer rotinas;
  • uso de aplicativos e lembretes;
  • remover distrações, como uso excessivo do celular;
  • fazer exercícios para memória de forma gradual (quebra-cabeças, aprender coisas novas etc.).

“No entanto, é importante a avaliação dos aspectos emocionais, pois é comum a coexistência de sintomas de ansiedade e/ou depressão, que também podem interferir na memória quando não compensados. Outras questões de saúde, como problemas na função tireoidiana (hipo e hipertireoidismo), sequelas de AVC e de outras doenças neurológicas também podem interferir”, afirma Uchôa

O médico também aconselha que as pessoas se mantenham ativas. “Seu cérebro é semelhante a um músculo —você precisa usá-lo ou você o perde”, diz.

Outra questão essencial é estar socialmente envolvido. Procure oportunidades para se conectar com amigos e pessoas queridas, especialmente se você mora sozinho.

Há pesquisas que ligam o confinamento ou isolamento à atrofia cerebral, portanto, permanecer socialmente ativo pode ter o efeito oposto e fortalecer a saúde do cérebro.Eduardo Uchôa.

Além dessas recomendações, devemos sempre lembrar do tripé atividade física regular, alimentação balanceada e sono reparador, o que melhora a qualidade de vida como um todo e, sem dúvida, impacta na recuperação.

Para Livia Ciacci, neurocientista do Supera – Ginástica para o cérebro, a primeira rede de escolas de ginástica para o cérebro da América Latina. exercitar este órgão é tão importante quanto o treino aeróbico para o nosso corpo.

“Para as pessoas que relatam prejuízos com a memória depois da covid, os exercícios conhecidos como ginástica para o cérebro, que atuam diretamente na memória, raciocínio e concentração, podem oferecer uma possibilidade de estímulo, sobretudo em casos leves, quando a perda de memória é identificada logo após a doença”, afirma.

Dicas simples

A seguir, Ciacci sugere algumas dicas simples, que podem até parecer triviais, mas que a longo prazo podem ajudar a melhorar a performance da capacidade de memorização.

Faça cálculos mentais

Em vez de usar a calculadora para fazer pequenas contas durante o dia, como o troco que você recebe na padaria, tente estimular seu cérebro a fazer as contas mentalmente. Dessa forma, você o provoca de forma a fazer mais conexões para fortalecer a comunicação entre seus neurônios, trabalhando o raciocínio lógico de forma cotidiana.

Vá ao mercado sem uma lista

Observe atentamente a dispensa da sua casa e busque mentalizar o que você precisa comprar quando sair, em vez de escrever uma lista com todos os itens. Assim, você incentiva o cérebro, cada vez mais, a lhe ajudar a ter mais concentração na hora de observar as coisas que você não pode se esquecer.

Faça atividades estimulantes

Compre uma daquelas revistinhas de caça-palavras, monte um quebra-cabeça, faça Sudoku ou palavras cruzadas. Isso ajuda a estimular o cérebro a compreender novas palavras, a estabelecer cálculos mentais e se lembrar de figuras e imagens para conseguir solucionar os desafios propostos pelos jogos lúdicos. São atividades simples que podem ser incorporadas no dia a dia, em momentos de lazer.

Relembre seu dia

Ao final do dia, que tal fazer um diagnóstico de tudo aquilo que você fez ou deixou de fazer? Tente se lembrar com quem você se encontrou, as atividades que fez, aquilo que precisava fazer e, por alguma razão, não conseguiu, as frases que falou, a roupa que vestiu ou com o que se alimentou durante as refeições.

Esteja mais atento

A concentração é muito importante quando o assunto é memória. Preste atenção nos objetos que você tem na sua casa ou no escritório. Tente se lembrar onde ficam, o que são e, em alguns casos, onde você costuma guardá-los. Isso o ajudará a ter cada vez mais controle sobre suas lembranças e sobre aquilo que você precisa utilizar diariamente, facilitando a rotina de organização no dia a dia.

Fontes: Eduardo Uchôa, diretor da regional Centro-Oeste da ABN (Associação Brasileira de Neurologia); Livia Ciacci, neurocientista do Supera – Ginástica para o cérebro; Lúcia Willadino Braga, neurocientista e presidente da Rede Sarah, em Brasília; Rodolfo Furlan Damiano, psiquiatra e pesquisador do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).