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Carmita Abdo, do IPq, fala sobre relacionamentos amorosos, em matéria do Jornal da USP. Confira!

“Boy Sober”: por que estar só virou uma escolha consciente entre as jovens

Tema ganha visibilidade nas redes sociais e levanta questões sobre as expectativas sociais impostas às mulheres

 Publicado: 20/10/2026 às 5:33

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Imagem de duas mãos - uma de um homem, outra de uma mulher -, sendo que a mão da mulher foi captada pela câmera no ato de colocar uma aliança de casamento no dedo anular do homem
Afastar-se de flertes e encontros é uma maneira de repensar a vida afetiva e as expectativas em torno das relações – Foto: freepic.diller/Freepik
Muitas mulheres, principalmente da geração Z, têm escolhido não priorizar relacionamentos amorosos. O movimento ganha força nas redes sociais, onde mulheres, sobretudo heterossexuais, compartilham experiências e frustrações afetivas. Para muitas, a opção tem sido abrir mão de encontros e flertes para dedicar mais tempo à própria vida, à carreira e, principalmente, à saúde mental. Na internet, o termo boy sober descreve essa experiência. A expressão é usada para definir um período de abstinência de relacionamentos amorosos, semelhante a um detox afetivo. Mas até que ponto as redes sociais influenciam a maneira como as mulheres jovens enxergam os relacionamentos?

Para Carmita Abdo, psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da USP, essas plataformas se tornaram uma das principais fontes de inspiração para as novas gerações. Segundo a especialista, os conteúdos vistos e compartilhados nas redes podem influenciar comportamentos e percepções sobre namoro, casamento e relações com os homens.

Carmita Abdo – Foto: Acervo Pessoal

Diferentemente de outras épocas, quando livros, filmes e novelas desempenhavam um papel importante na construção dessas referências, hoje as redes sociais ocupam um espaço central nesse processo, contribuindo para a formação de pensamentos e sentimentos compartilhados coletivamente.

Da imposição social à liberdade de escolha

Durante muito tempo, o matrimônio e as uniões afetivas foram tratados como transações comerciais, em um contexto no qual as mulheres tinham pouca ou nenhuma autonomia para decidir sobre o próprio destino. De acordo com Carmita Abdo, ainda persistem resquícios de ideais machistas e misóginos que condicionam as expectativas sociais em relação às mulheres. “A boa notícia é que, pouco a pouco, as mulheres têm vivenciado com mais intensidade a profissão ou outros aspectos da vida além dos relacionamentos. E isto vai mudando o pensamento socialmente instituído ao longo de séculos. Nós estamos no caminho de transformar essa ideia antiga em algo novo, dando à mulher a possibilidade de escolha tanto quanto o homem tem”, afirma a psiquiatra.

Carreira, autonomia e expectativas

Para a especialista, são diversas as razões que podem levar uma mulher a desistir de buscar um relacionamento. Em muitos casos, ela prefere investir na carreira ou em projetos pessoais, e uma relação amorosa pode exigir tempo e dedicação que não está disposta a oferecer naquele momento. “Quanto mais altas forem as expectativas, a autoestima e a necessidade de autonomia, mais difícil é encontrar uma parceria à altura dessas expectativas. Então, muitas mulheres, fazendo a conta, preferem permanecer sem alguém, exatamente porque não foi atingido o nível mínimo de exigência que elas têm em relação a estabelecer uma parceria”, explica.

As experiências anteriores também podem interferir na disposição para iniciar novos relacionamentos. “Uma situação negativa ou várias situações negativas sucessivas, em termos de relacionamentos frustrados, acabam trazendo desinteresse e afastam a possibilidade de uma nova tentativa”, observa Carmita. Segundo a psiquiatra, é possível diferenciar quem escolhe permanecer solteira de quem enfrenta dificuldades para estabelecer vínculos. Neste último caso, essas dificuldades podem se manifestar em diferentes etapas da vida e em diversos contextos, como na escola, no trabalho e nas atividades sociais.

Uma pausa para o autoconhecimento

Afastar-se temporariamente dos relacionamentos após experiências negativas pode ser uma atitude saudável. Segundo Carmita Abdo, esse período permite refletir sobre padrões afetivos, escolhas de parceiros e circunstâncias que podem contribuir para a repetição de relações tóxicas. A pausa pode funcionar como uma oportunidade de autoconhecimento e reavaliação das próprias expectativas. Ao repensar suas experiências, a mulher pode identificar o que deseja e quais limites considera importantes em futuras relações. A decisão de permanecer solteira, portanto, não significa necessariamente uma rejeição definitiva ao amor ou à vida a dois. Pode representar uma escolha consciente de priorizar outros aspectos da vida ou, simplesmente, de não aceitar relacionamentos que não correspondam às próprias expectativas.

*Sob supervisão de Márcia Avanza

 

Jornal da USP no Ar é veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 12h40, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9. Ouça também pelo link ou pelos agregadores de podcasts à disposição.


 

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