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O coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do IPq, Cristiano Nabuco, explica as consequências à saúde mental que as redes sociais e dependência de internet podem causar, dando dicas e orientações, em matéria do portal G1.

Por Úrsula Neves

 

Como perceber que o tempo em que passamos nas redes sociais está afetando a nossa saúde mental? Como não deixar o smartphone se tornar uma extensão do nosso corpo? E como reduzir esse impacto e evitar que a internet se transforme em um risco para desenvolvimento de transtornos como ansiedade e depressão? Para o ator britânico Tom Holland, o Homem-Aranha dos atuais filmes da Marvel, a sensação foi de sufocamento, como mostra o vídeo abaixo, publicado recentemente no seu Instagram oficial, em que o astro foi bem direto na legenda: “Olá e adeus… Estou dando uma pausa nas redes sociais pela minha saúde mental”:

– Estou dando um tempo nas redes sociais pela minha saúde mental. Porque acho o Instagram e o Twitter estressantes e sufocantes. Me sinto preso e surto quando leio certas coisas sobre mim on-line e, em última análise, isso estava fazendo muito mal para o meu estado de saúde mental, então decidi dar um passo para trás e deletar os aplicativos – disse Tom no vídeo, que seguiu explicando como funciona uma iniciativa beneficente patrocinada por um fundo mantido por ele e seus irmãos a favor da saúde mental de jovens e completou: – Eu sei que existe um estigma péssimo acerca de saúde mental. Sei que procurar e pedir ajuda não é algo do qual deveríamos nos envergonhar, mas é muito mais fácil falar do que fazer. (…) Obrigado por ouvir. Eu vou sumir do Instagram novamente. Obrigado pelo seu amor e apoio, falo com vocês de novo em breve.

Sinais

  1. Checar as redes sociais é a primeira coisa que você faz ao acordar e a última que faz, antes de dormir;
  2. Checar as redes repetidas vezes durante o dia;
  3. Sintomas de F.O.M.O.: medo de ficar por fora ao perder atualizações nas redes;
  4. Sensação de precisamos de interações, como curtidas e comentários, para nos sentirmos felizes;
  5. Depender da validação de conhecidos e estranhos na internet;
  6. Trocar programas com os amigos por ficar em casa na internet ou jogando videogame;
  7. Preferir experiências virtuais a presenciais;
  8. Ficar mexendo no celular durante conversas e jantares com amigos e parentes;
  9. Ter sinais de ansiedade em relação à espera de interações na internet;
  10. Começar a ter sintomas de depressão relacionados ao excesso ou à falta de interações nas redes;
  11. Falta de concentração em tarefas não virtuais;
  12. Necessidade de postar todos os acontecimentos do seu dia.

 

Tom Holland na última foto que postou antes de avisar, por vídeo, que tirou um tempo das redes sociais — Foto: Reprodução Instagram

Tom Holland na última foto que postou antes de avisar, por vídeo, que tirou um tempo das redes sociais — Foto: Reprodução Instagram

As redes sociais são parte da vida da maioria das pessoas hoje em dia, inclusive profissionalmente. O problema é quando ela se torna um vício e uma fonte de estresse. Já existe até um transtorno específico ligado a isso, chamado de F.O.M.O., do inglês Fear of Missing Out, ou medo de ficar por fora dos acontecimentos, de não conseguir acompanhar as atualizações, o que faz a pessoa se sentir obrigada a manter-se presa, conectada às redes sociais o dia todo. Mas quando saber que é hora de dar um tempo, como Tom? Ou ao menos de reduzir o tempo gasto on-line?

– Sempre que as nossas experiências virtuais começarem a se sobrepor às experiências na vida real, é um indicativo de que precisamos ficar atentos. Quando precisamos desesperadamente de mais conexão para nos sentirmos bem e conseguirmos o mesmo nível de satisfação que tínhamos anteriormente, assim como acontece com os usuários de álcool, cigarro e outras drogas – responde o psicólogo Cristiano Nabuco, que é coordenador do grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

A sensação de muitas pessoas é de estar presas, algemadas às redes sociais — Foto: Istock Getty Images

A sensação de muitas pessoas é de estar presas, algemadas às redes sociais — Foto: Istock Getty Images

O especialista lembra que o nosso cérebro é extremamente vulnerável às avaliações sociais. Então, sempre que sabemos que alguém está nos avaliando, isso cria em nós um estado de vulnerabilidade psicológica. Desta maneira, quando começamos a usar as redes sociais para compartilhar diariamente ou até várias vezes o nosso dia a dia, como o prato de pizza, a ida na academia, o encontro com o namorado ou o apartamento novo, postando quase impulsivamente, começamos a enfrentar o perigo de entrar num espiral de ansiedade e depressão.

Como funciona o espiral das redes sociais

 

Quando as pessoas estão umas ao lado das outras, mas só têm olhos para o celular, é um sinal de que algo não vai bem — Foto: Istock Getty Images

Quando as pessoas estão umas ao lado das outras, mas só têm olhos para o celular, é um sinal de que algo não vai bem — Foto: Istock Getty Images

De acordo com os especialistas entrevistados, esse processo funciona da seguinte maneira:

  • Quanto mais as pessoas dão um retorno positivo ou negativo às nossas postagens, vai sendo criado um “norte magnético invisível” de como nos comportar, inconscientemente.
  • Seguir por essa linha é perigoso, pois é a linha da hipervalorização. E essa hiper, megavalorização vai aumentando de importância dentro das nossas vidas.

– Quando, por exemplo, um adolescente começa a preferir as experiências virtuais, como ficar em casa jogando videogame ao invés de sair com os colegas, isso começa a fazer com que ele deixe de praticar certas habilidades que serão importantes na vida adulta, fazendo, por exemplo, que esse jovem não consiga mais falar sobre os seus sentimentos, da própria percepção de si mesmo, de sentir empatia, de fazer associações entre emoções e lembranças, da capacidade de criar atratividade para o outro, de criar uma riqueza de narrativa, da facilidade de fazer reflexões ou ainda de puxar a sua memória de longo prazo e compartilhá-la com outra pessoa. Na medida em que um jovem fica o tempo todo conectado, o seu discurso fica mais estreito, mais raso, fazendo com que a sua própria capacidade de troca e, obviamente, de ser percebido como alguém interessante, despenque – exemplifica o psicólogo Cristiano Nabuco.

Uma pesquisa realizada no Reino Unido, antes da pandemia de Covid-19, mostrou que 51% dos adolescentes entrevistados em uma grande amostra afirmaram que se sentiriam mais felizes se as redes sociais nunca tivessem sido inventadas.

– Isso nos faz pensar que os próprios adolescentes já estão percebendo que as redes sociais criam uma falsa necessidade de que temos que continuar postando para nos sentirmos aceitos, pertencentes, gerando assim uma espiral quase compulsória de postar-checar-postar-checar, roubando tempo e experiências ricas da vida concreta, real – observa Cristiano Nabuco.

Tempo gasto nas redes sociais

 

As redes sociais podem despertar sintomas de ansiedade e depressão — Foto: Istock Getty Images

As redes sociais podem despertar sintomas de ansiedade e depressão — Foto: Istock Getty Images

Uma segunda pesquisa, também realizada no Reino Unido antes da pandemia de Covid-19, revelou um dado alarmante: meninas adolescentes que gastavam mais de três horas em redes sociais por dia apresentavam um aumento de 75% no risco de desenvolver comportamentos autolesivos, como automutilação e tentativas de suicídio.

O especialista ainda alerta para alguns sinais que não devem ser ignorados, como quando a pessoa não larga mais o celular ou computador em momento algum, se recusa a sair até para passear ou a fazer algo de que gostava antes para ficar on-line. Ele compara esse comportamento ao indivíduo dependente de drogas. O caso é ainda mais grave com crianças e adolescentes. No momento em que esse jovem tem a restrição ao acesso, torna-se agressivo e expõe uma inabilidade emocional.

– Crianças e adolescentes não precisam usar tecnologia 24 horas por dia. Ao contrário, precisam ser apresentados a comportamentos diversos para aprender que existe um mundo e um mundo legal de experiências face a face – destaca a psicóloga Andréa Jotta.

 

Segundo o psicólogo Cristiano Nabuco, quando a pessoa "fica o tempo todo conectada, o seu discurso fica mais estreito, mais raso, fazendo com que a sua própria capacidade de troca" — Foto: Istock Getty Images

Segundo o psicólogo Cristiano Nabuco, quando a pessoa “fica o tempo todo conectada, o seu discurso fica mais estreito, mais raso, fazendo com que a sua própria capacidade de troca” — Foto: Istock Getty Images

É fato que uma compulsão por tecnologia é mais difícil de perceber e diagnosticar do que uma compulsão por bebidas alcoólicas ou compras. Até porque, com a pandemia, as telas digitais se tornaram a grande janela para o mundo. E com isso, aquilo que já não vinha bem aumentou de uma forma significativa.

Um estudo divulgado pela agência de marketing digital Sortlist revelou que os brasileiros gastam mais de 10 horas por dia navegando na internet, sendo que três horas e 42 minutos desse tempo é para acessar as redes sociais. Os dados coletados também apontam que o Brasil é o terceiro país que mais gasta tempo da internet, por volta de 10 horas e 12 minutos por dia conectado. Praticamente 100, 110 dias por ano que gastamos nas telas. E isso, sem dúvida, faz com que muitas das experiências que deveríamos viver na vida real sejam deixadas de lado.

Grupos de tratamento

Geralmente, o tratamento individual é realizado por meio da análise do padrão de uso da tecnologia feito pelo paciente, buscando sensibilizar o indivíduo sobre o seu problema, que muitas vezes somente é percebido pelos familiares.

Grande parte desses usuários também apresenta depressão, sendo medicados contra a doença junto com o tratamento, mas a pedra fundamental de um grupo de dependência tecnológica é a psicoterapia.

– Nos grupos de auxílio, a diminuição do uso de telas e a gradual substituição por outras atividades são conseguidas através de exercícios comportamentais e autoconhecimento. No caso de crianças e adolescentes, os pais e familiares também são envolvidos no tratamento – explica Andréa Jotta.

Esses grupos se baseiam na ideia de colocar no mesmo espaço pessoas que sofrem do mesmo problema para que elas sejam “forçadas” a reconhecer aquilo que muitas vezes negam nas suas próprias realidades.

– Muitos até criam uma personalidade digital, retocando fotos, criando um novo nome, dando para essas pessoas uma ”alavanca emocional” para que elas possam se sentir mais aceitas. O objetivo é fazer com que os participantes encontrem outros estímulos para concorrer com essa atratividade que a internet oferece. Ao final do trabalho, buscamos que desenvolvam minimamente uma consciência do uso saudável das telas. Buscamos que eles aprendam que devem controlar a tecnologia e não deixar que ela controle as suas vidas – conta Cristiano Nabuco.

A professora e pesquisadora norte-americana Sherry Turkle toca nesta questão quando diz que “a tecnologia entra na vida de uma pessoa quando as relações humanas não ocupam o seu devido lugar”.

Como participar

Os interessados em participar do grupo do Instituto de Psiquiatria da FMUSP podem entrar no site Dependência de Internet para obter orientações sobre tratamento gratuito, independente da idade. Há também a possibilidade de grupos com reuniões on-line para pessoas de outros estados brasileiros.

O Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação (Janus) da PUC-SP também realiza estudos, pesquisas e serviços de psicologia. Acesse o site e entre em contato.

Andréa Jotta (@andreajotta) é psicóloga, pesquisadora e professora convidada dos cursos de Psicologia Intermediada por Tecnologias da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Cristiano Nabuco (@cristianonabuco) é psicólogo e coordenador do grupo de @dependenciastecnologicas.ipq do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

https://ge.globo.com/eu-atleta/saude-mental/noticia/2022/08/24/o-que-fazer-quando-as-redes-sociais-afetam-a-saude-mental.ghtml