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Dr. Fábio Salzano, do IPq, fala sobre Anorexia e Bulimia, no Portal Drauzio Varella.

TRANSTORNOS ALIMENTARES: ENTENDA COMO O PADRÃO DE BELEZA PODE SER UM FATOR DE RISCO PARA ANOREXIA E BULIMIA

Os transtornos alimentares são multifatoriais, ou seja, existem diversos fatores associados, e a busca pelo corpo “perfeito” é um deles. Conheça os principais e saiba como funciona o tratamento.

Maiara Ribeiro

Maiara Ribeiro é repórter do Portal Drauzio Varella desde 2018. Tem interesse em assuntos relacionados à saúde da criança, da mulher e do idoso.

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Publicado em: 10 de novembro de 2022

Revisado em: 10 de novembro de 2022

Os transtornos alimentares são multifatoriais, ou seja, existem diversos fatores associados, e a busca pelo corpo “perfeito” é um deles. Conheça os principais e saiba como funciona o tratamento.

A busca pelo corpo “perfeito” por meio de dietas restritivas, a percepção de que somente pessoas muito magras são bonitas, comentários a respeito do peso frequentes no ambiente familiar, questões genéticas: são muitos os fatores que podem levar uma pessoa a desenvolver um transtorno alimentar, distúrbio psiquiátrico que causa disfunções no comportamento alimentar, muitas vezes acompanhadas de preocupação excessiva com o peso e grande sofrimento psíquico.

Estima-se que hoje, em todo o mundo, mais de 70 milhões de pessoas tenham algum transtorno alimentar, como anorexia nervosabulimia nervosa e compulsão alimentar, entre outros. Além de causar um grande prejuízo físico e mental na vida dos pacientes, já que normalmente as questões relacionadas ao comer e à imagem corporal tornam-se centrais no seu dia a dia, em casos graves, alguns transtornos podem levar à morte.

“A anorexia nervosa é um transtorno alimentar que você vai ver índices de mortalidade que variam de 6% até 10% em pessoas não tratadas. É um dos transtornos psiquiátricos que têm a maior mortalidade. Isso é extremamente preocupante”, afirma o dr. Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq/USP).

Qual a diferença entre anorexia e bulimia? 

Às vezes, as pessoas confundem os dois transtornos, mas eles têm características bem específicas. A anorexia nervosa é marcada pela recusa da pessoa em manter um peso adequado, um medo muito grande de ganhar peso e/ou uma distorção sobre sua imagem corporal, ou seja, ela sempre acha que não está magra o suficiente e que precisa perder mais peso. “Talvez, para sintetizar em uma pequena frase, eu diria que é a busca pela magreza extrema”, explica o psiquiatra.

Segundo ele, o termo “anorexia” não é o mais adequado, porque anorexia significa falta de apetite. “Os pacientes que têm anorexia nervosa não deixam de ter fome, não é isso. Eles querem ter um controle intenso do que ingerem porque eles buscam perder cada vez mais peso”, afirma.

“O comportamento alimentar clássico da anorexia nervosa é uma progressiva e grave restrição alimentar na qual o paciente elimina os alimentos que ele julga ruins, calóricos e acaba tendo uma dieta bastante empobrecida. A questão da alimentação se torna central na vida desses pacientes. Essa restrição alimentar leva a uma marcante perda de peso na maioria dos casos, e os pacientes frequentemente negam o problema e se mostram indiferentes ao seu péssimo estado nutricional”, explica Vanessa Tomasini, psicóloga especialista em transtornos alimentares.

Já a bulimia nervosa é caracterizada por episódios de compulsão alimentar com perda de controle sobre a quantidade ingerida seguidos de métodos compensatórios para evitar o ganho de peso. Nos episódios compulsivos, a pessoa geralmente ingere, em um curto período de tempo, uma grande quantidade de alimentos que as pessoas que não têm compulsão não conseguiriam comer nas mesmas circunstâncias.

Diferente da anorexia, quem tem bulimia nervosa não está buscando a magreza extrema. O objetivo das medidas é evitar a qualquer custo o ganho de peso.

No caso de pessoas com anorexia, segundo Fábio, são mais comuns características como perfeccionismo e rigidez de comportamentos. Enquanto isso, nos pacientes com bulimia, é mais frequente a impulsividade. Muitas pessoas com bulimia, inclusive, acabam desenvolvendo outros comportamentos compulsivos relacionados a álcool e compras, por exemplo. Também é comum a tricotilomania (ato de arrancar pelos do corpo), não por questões estéticas, mas como uma forma de aliviar a ansiedade.

Em ambos os casos, o peso e a forma corporal normalmente têm um grande impacto na autoavaliação dos pacientes. A produtora de conteúdo Mirian Bottan, de 36 anos, sabe o que é isso. Ela conviveu com a bulimia dos 13 aos 28 anos de idade.

 Como é conviver com um transtorno alimentar

A relação conflituosa de Mirian com o seu corpo começou muito cedo, aos 6 anos, quando ela passou a participar de desfiles e concursos de beleza. Ainda criança, Mirian aprendeu que a beleza era algo muito importante e que para ser bonita só existia um caminho: a magreza extrema. Ela participou dos concursos até os 12 anos de idade, quando finalmente começou a expressar sua angústia em relação às competições e seus pais entenderam que aquilo estava fazendo mal para a filha.

“Mas já era tarde demais, o ambiente dos concursos era permeado de um culto ao corpo super magro das modelos dos anos 2000. Sem dúvida esse contexto teve grande peso no fato de aos 12 anos eu já era totalmente obcecada com a ideia de que um corpo bonito era um corpo extremamente magro, com os ossos aparecendo – coisa que eu buscava diariamente no espelho”, conta.

Com 12 anos, ela começou a fazer dietas por conta própria, evitando alimentos que no imaginário popular são “vilões”, responsáveis pelo ganho de peso, como arroz, pão, massas, molhos e doces. “Em pouco tempo passei a perder o controle quando finalmente comia algum desses alimentos proibidos, ingerindo num curto período de tempo quantidades muito maiores do que costumava comer normalmente. Por exemplo, em vez de comer um prato de espaguete, repetia duas, três, quatro vezes, compulsivamente, até terminar comendo direto da panela, o que só parava quando a comida acabava.”

Aos 15 anos, ela buscava métodos compensatórios diariamente para evitar o ganho de peso, e chegou a pesar 38 quilos. “Passei a evitar praticamente todas as atividades sociais e me isolar em casa, perdendo até um ano na escola. Também nesse período, com a doença já trazendo várias consequências físicas como perda de cabelo, anemia e interrupção da menstruação, aceitei ajuda pela primeira vez e iniciamos um tratamento medicamentoso e psicoterapêutico”, relata.

Porém, a mudança de vida só veio mais de dez anos depois, quando ela se sentiu pronta e procurou ajuda por conta própria. “O pior de um transtorno alimentar é justamente isso, ele parece muito mais uma saída do que um problema, você não quer se curar, quer que continue porque é uma muleta para as questões emocionais. Foram anos de terapia para que eu entendesse que podia encontrar outros caminhos para lidar com os meus sentimentos”, afirma Mirian.

Fatores de risco

Os especialistas dizem que esse tipo de distúrbio tem causa multifatorial, ou seja, existem diversos fatores de risco, conforme mencionado na abertura do texto. Esses fatores podem ser genéticos, familiares, psicológicos e socioculturais. O médico comenta que já existem estudos indicando que há um componente genético presente nesse tipo de transtorno, apesar de não ter sido identificado nenhum gene específico que explique a condição.

Segundo Caroline Bartholo, nutricionista especialista em transtornos alimentares, um dos principais fatores que ajudam a desencadear um transtorno alimentar é a prática de dietas restritivas. “Nem todo mundo que faz dieta vai desenvolver um transtorno alimentar, mas todo transtorno alimentar começou com uma dieta”, afirma.

“Quando a gente fala em fatores de risco, a gente vai levar em conta que, por exemplo, crianças que tiveram sobrepeso na infância provavelmente foram mais incitadas a fazer dietas ou foram mais colocadas em exposição com relação a ter que emagrecer ou a ideia de ter um corpo inadequado. Então, isso se torna um fator de risco também”, comenta Vanessa.

Na adolescência, principalmente no caso das meninas, pode existir um incômodo em relação às mudanças corporais, como desenvolvimento das mamas e aumento dos quadris, por exemplo, e muitas vezes elas acabam ouvindo comentários desagradáveis a respeito de seu corpo. Isso também acaba sendo um fator motivador para as dietas restritivas, destaca o psiquiatra.

Além disso, pessoas com profissões voltadas para o esporte ou que trabalham com a imagem também podem estar mais expostas a este tipo de transtorno, como atletas, bailarinos, educadores físicos, nutricionistas e modelos, por exemplo.

O padrão de beleza adoece

Todos os especialistas são enfáticos em afirmar que a supervalorização de um corpo padrão, considerado o corpo “ideal”, é um fator que tem impacto no desenvolvimento dos transtornos alimentares em geral.

De acordo com Fábio, existem diversos trabalhos feitos em países de culturas diferentes, como países na Ásia, no Oriente Médio e Ilhas Fiji, mostrando que a exposição aos modelos de beleza do Ocidente – ou seja, Estados Unidos e Europa Ocidental – que geralmente são pessoas brancas e com peso abaixo do habitual, causa danos àqueles que não são dessa etnia. “Isso faz com que essas pessoas passem a ter uma maior insatisfação corporal, e essa insatisfação faz com que essas pessoas acabem se lançando em uma busca, às vezes desenfreada, por uma perda de peso ou por um controle do peso, e isso facilita, sim, que haja um início de um transtorno da alimentação.”

A ideia de que um corpo magro é mais valorizado pela sociedade muitas vezes começa dentro de casa, com os próprios familiares fazendo comentários depreciativos a respeito de pessoas fora desse padrão. “Nós observamos que às vezes os pacientes contam que na própria família ouviam muito que ter um padrão de corpo talvez até dentro do esperado, do normal, mas com uma tendência mais próxima do IMC 24 ou 25 [o máximo na categoria de peso ideal é 24,9] era exagerado. Ouviam que ser obeso era algo completamente fora do padrão que os pais desejavam. [Os pais] davam exemplos pejorativos de pessoas com obesidade ou com sobrepeso, como se o futuro de uma pessoa não fosse adequado em termos profissionais, em termos de relacionamentos intrafamiliares, relacionamentos afetivos, conjugais, caso a pessoa estivesse acima do peso”, conta o psiquiatra.

“Culturalmente, essa ideia de que o corpo magro é um corpo privilegiado, e ele realmente é um corpo privilegiado, está fincada. O corpo magro consegue encontrar roupas com facilidade, consegue assentos no avião que caibam melhor, consegue cadeiras e por aí vai. Sem sombra de dúvidas é um caldo que nos envolve socialmente, a todos nós, inevitavelmente, e pode ser sim um colaborador, um dos fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares”, afirma Vanessa.

“Infelizmente, vivemos numa sociedade que cultua a magreza a qualquer custo e vende a ideia de que qualquer pessoa pode alcançar esse corpo idealizado”, completa Caroline.

https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/transtornos-alimentares-entenda-como-o-padrao-de-beleza-pode-ser-um-fator-de-risco-para-anorexia-e-bulimia/