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Triagens para Projetos de Pesquisa

Mario Louzã, do IPq, fala sobre o conteúdo nas redes sociais sobre TDAH, em entrevista ao Medscape.

Luisa Carvalho

16 de abril de 2025

Um estudo canadense, publicado em março no periódico PLOS One, mostrou o que muitos médicos já imaginavam: mais da metade do conteúdo sobre transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) no TikTok está em desacordo com a 5a edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Os pesquisadores descobriram ainda que os internautas que assistem aos vídeos tendem a superestimar a prevalência do transtorno.

O trabalho foi dividido em duas partes. Na primeira, dois psicólogos clínicos e especialistas em TDAH avaliaram os 100 vídeos mais populares do TikTok com a hashtag #ADHD (sigla em inglês para TDAH). Apesar da popularidade dos vídeos que, segundo os autores, acumulavam quase meio bilhão de visualizações, 48,7% das alegações sobre os sintomas do TDAH foram julgadas como desalinhadas ao DSM-5.

Nesta etapa, chama a atenção também que, entre os influenciadores que postaram conteúdo sobre TDAH, 50% estavam vendendo algum produto — livros de exercícios e serviços de coach, por exemplo — ou buscavam compensação financeira de outra forma, pedindo, por exemplo, que os usuários comprassem produtos com seus cupons, gerando comissões pela Amazon, entre outras.

Na segunda etapa do estudo, os pesquisadores perguntaram a 843 estudantes de graduação sobre os hábitos de visualização de conteúdos marcados com a hashtag e suas percepções dos vídeos selecionados pelos especialistas — os cinco que eles provavelmente recomendariam como psicoeducação sobre TDAH e os cinco que eles não recomendariam.

O resultado mostrou que estudantes formalmente ou autodiagnosticados com TDAH (198 e 421 participantes, respectivamente) relataram acompanhar a hashtag com mais frequência do que alunos sem o transtorno (224).

Os pesquisadores descobriram que os alunos que assistiam a essa categoria de vídeo com mais frequência eram mais propensos a dizer que eles próprios recomendariam os cinco primeiros e os cinco últimos vídeos selecionados pelos psicólogos — ou seja, disseram que compartilhariam conteúdos com desinformação sobre o transtorno.

Além disso, foi observado que pessoas que consumiram uma grande quantidade de conteúdo relacionado ao TDAH também tinham tendência a superestimar a prevalência do transtorno em até 10 vezes e pensar mais negativamente sobre seus próprios sintomas.

No entanto, os pesquisadores descrevem este estudo como “um ponto de partida” para a pesquisa que explora como o TDAH é retratado no TikTok, e são necessários mais trabalhos para compreender a relação entre o transtorno e a rede social.

Estudo levanta preocupações

Especialistas explicam que o resultado do estudo não é uma novidade, uma vez que a internet é um espaço repleto de informações equivocadas sobre diversos problemas de saúde, incluindo o TDAH. “É quase como se existisse um ‘hiperdiagnóstico’ de TDAH nas redes sociais. A prevalência do transtorno na população mundial é de 3% a 7%, mas as pessoas que se autodiagnosticam equivalem a algo perto de 50%”, diz a Dra. Danielle Admoni, psiquiatra na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

A Dra. Danielle explica que é comum assistir aos vídeos e, logo em seguida, se identificar com todos os sintomas, que costumam ser abrangentes e genéricos. “É bom lembrar que a faculdade de medicina dura seis anos; [incluindo] a residência em psiquiatria, é [um percurso] demorado. E, mesmo assim, nós mesmos podemos ficar na dúvida do diagnóstico”, explica.

Além disso, conteúdos com falsas informações relacionadas à saúde trazem riscos, reforça o Dr. Mario Louzã Neto, psiquiatra e coordenador do Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade no Adulto (Prodath), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-FMUSP). “Muitas vezes, as pessoas com problemas psicológicos ou emocionais podem ter contato com essas informações e seguir um tratamento errado, que não é adequado para elas”, diz o médico.

Trabalho em conjunto

Já para o Dr. Luis Augusto Rohde, psiquiatra e vice-coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), o estudo mostra que as redes sociais poderiam ser bem utilizadas. “Em primeiro lugar, as redes sociais têm se tornado cada vez mais uma fonte de informações de saúde. Isso tem um potencial bom de capilaridade, é positivo. O que acontece é que não existe uma curadoria científica do material que chega ali. São coisas de baixa qualidade”, afirma.

O Dr. Luis, também professor da Unifesp e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que enxerga um potencial trabalho em conjunto entre especialistas e influenciadores. “Esses canais são os que as pessoas vão procurar, quer a gente queira ou não. Ao invés de criticar, temos de procurar fazer um trabalho em conjunto para melhorar a qualidade do conteúdo que chega para a população”, diz.

O Dr. Mario conta que os pacientes o procuram para “confirmar a hipótese deles”. “Eles pegam uma lista na internet e já chegam ao consultório dizendo que têm aqueles sintomas e [definindo] como será o tratamento”, conta. “Com isso, a gente precisa desconstruir tudo e começar de novo.”

Segundo o Dr. Mario, o médico precisa entender toda a história do paciente, fazer uma anamnese longa e detalhada, com base em critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da American Psychiatric Association. “Isso tem de ser explicado e repassado ao paciente. É todo um trabalho de orientação e esclarecimento para ele”, diz. “Às vezes, as pessoas fazem esse autodiagnóstico e de fato podem ter TDAH, mas, em outros casos, pode ser outra doença”, explica o especialista.

Há ainda uma diferença entre ter TDAH e levar uma rotina com excesso de afazeres. “Hoje, as coisas acontecem em uma velocidade muito maior, então isso dá uma falsa sensação de que a pessoa tem TDAH porque não consegue prestar atenção da forma que gostaria, mas não é bem assim”, reforça o médico.

O Dr. Mario dá outros exemplos que o preocupam, como os pacientes que procuram auxílio médico apenas para ter acesso a medicamentos. “Isso é muito comum com pessoas que estudam para concursos, que são da área financeira ou que estão na época do vestibular. Elas estão cansadas e acham que a medicação poderia ajudar. Elas [nos procuram e] já querem cravar a receita, então precisamos tomar muito cuidado”, diz.

E as redes sociais no Brasil?

A pedido do Medscape, os médicos avaliaram os três vídeos de maior popularidade quando se busca a hashtag #TDAH no TikTok Brasil.

No primeiro deles, uma influenciadora cita “seis coisas que todo TDAH odeia”, entre elas “barulho de gente mastigando” e “pessoas que conversam cutucando”. Ao fim do vídeo, ela oferece um tratamento natural para o transtorno.

segundo vídeo mostra, de forma supostamente ilustrativa, como age a medicação para TDAH. Na cena, uma influenciadora ouve diversas vozes inexistentes até que, após o uso do medicamento, tudo fica em silêncio.

Já o terceiro vídeo, de um psicólogo, mostra as “manias” mais comuns de uma pessoa com TDAH, como balançar as pernas, cutucar a pele e gesticular muito com as mãos.

O Dr. Luis avalia o primeiro e o terceiro vídeo de maneira negativa. “Eles têm várias características que são atribuídas ao [quadro de] TDAH, mas que não são parte dos sintomas característicos do transtorno.” O segundo, sobre o medicamento, tem um efeito positivo, na opinião do médico. “É um efeito real da medicação, que é a redução do chamado ‘excesso de ruído de fundo’. Com o uso da medicação, a pessoa consegue focar no estímulo prioritário em cada momento.”

O Dr. Mario concorda sobre o vídeo da medicação, mas com ressalvas. “É óbvio que não é [exatamente] assim que funciona, mas a ideia não está totalmente errada. Talvez falte ali uma explicação, porque é um vídeo bem curto”, explica.

Sobre os vídeos que citam os “sintomas de TDAH”, a Dra. Danielle é crítica: “Isso é desinformação, porque a pessoa pode ter, na verdade, outro quadro psiquiátrico, mas acaba achando que é TDAH”, diz. Os supostos sintomas indicados no vídeo são manifestações genéricas, segundo a psiquiatra. “Precisamos lembrar que [a detecção médica de] todos esses conjuntos de sinais e sintomas leva em conta um prejuízo significativo para os pacientes em diversas áreas da vida”, afirma a Dra. Danielle.

Já sobre o conteúdo envolvendo a medicação, a psiquiatra reforça que o resultado não é tão mágico assim. “É sempre bom lembrar que as pessoas com TDAH têm um jeito [particular] de funcionar. Às vezes, indicamos associação [do tratamento farmacológico] com psicoterapia ou uma reabilitação neuropsicológica, uma terapia cognitivo-comportamental.”

É importante ressaltar que, embora redes sociais possam representar riscos na disseminação de informações equivocadas, elas também podem ser aliadas importantes na promoção da saúde. O Dr. Mario, por exemplo, utiliza o Instagram para compartilhar conteúdos com base científica: “Só publico informações respaldadas pela medicina baseada em evidências”.

Como orientação prática para os interessados em atuar nas redes, ele recomenda sempre utilizar fontes confiáveis — como sites institucionais de sociedades médicas e universidades — e, sempre que possível, incluir links diretos para os estudos ou recomendações oficiais citadas. Isso amplia a credibilidade do conteúdo e oferece ao público leigo acesso a informações de qualidade.

Fonte: https://portugues.medscape.com/verartigo/6512597#vp_2